Padre Wagner Ferreira "João Paulo II nos ensina que devemos assumir com o Senhor um compromisso para sempre"
Agora sim os fiéis podem incluir o nome de João Paulo II na ladainha dos beatos reconhecidos pela Igreja Católica Apostólica Romana. A beatificação do primeiro papa polonês, Karol Wojtyla, acontecerá em primeiro de maio, no Vaticano, e será presidida por Sua Santidade o Papa Bento XVI.
São esperados dois milhões e meio de pessoas do mundo inteiro para a beatificação de João Paulo II. Depois da missa, a urna ficará exposta em frente ao altar central da Basílica de São Pedro para que todos tenham a oportunidade de visitá-lo.
A multidão presente na Praça São Pedro, no funeral de João Paulo II, informalmente o aclamou santo súbito. Apesar de o Vaticano ter regras rígidas para dar início ao processo de canonização, o Papa Bento XVI concedeu uma autorização especial. Ele permitiu a abertura imediata da causa de Karol Wojtyla em 2006, reconhecendo-o como Servo de Deus.
Padre Wagner Ferreira, Formador Geral da Comunidade Canção Nova, durante dois anos morou em Roma durante o Pontificado de João Paulo II. Nesta entrevista, ele fala sobre este marcante evento na história da Igreja e sobre o testemunho de santidade que João Paulo II nos deixou.
No áudio abaixo, você confere este depoimento na íntegra:
cancaonova.com: Padre Wagner, o que representa para a Igreja – e de forma particular, para a Canção Nova – a beatificação de João Paulo II?
Padre Wagner: Primeiramente, eu vejo que João Paulo II deixou para nós muitos testemunhos. E eu destacaria hoje, dentre esses tantos testemunhos, as viagens que ele fez. Por onde João Paulo II passou, ele deixou uma marca nas autoridades civis, políticas e militares. E, sobretudo, deixou uma marca no coração do povo de Deus. Ele conseguiu ir a lugares onde a relação entre a Igreja e o governo local era tensa. Portanto, o que representa João Paulo II? Representa esta capacidade de ser um homem de Deus, profundamente aberto ao diálogo com quem pensa diferente. João Paulo II fez isso – em diversas ocasiões - com os líderes religiosos do mundo inteiro. E este testemunho que ele nos deixou é algo que nós, cristãos e católicos, precisamos aprender: termos consciência da Boa Nova de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, sermos homens e mulheres de Deus, que acolhem o próximo e se mostram abertos ao diálogo. Certamente, João Paulo II era um homem de esperança. E suas atitudes eram fruto desta confiança em Deus e naquilo que graça d'Ele podia produzir no coração das pessoas.
E, para a Canção Nova, a beatificação de João Paulo é algo maravilhoso, pois a missão da Canção Nova é evangelizar. E a nossa evangelização acontece sem fronteiras. Ela acontece preferencialmente e não exclusivamente através dos meios de comunicação. E esta evangelização exige que cada membro da Canção Nova vá de encontro às pessoas. E isso não como “donos da verdade”, impondo-a aos outros. Mas sim ir até elas com a Verdade no coração e estabelecendo um diálogo, respeitando as diferenças e comunicando com ousadia e coragem o Evangelho mesmo diante das adversidades, a exemplo do que fez João Paulo II.
cancaonova.com: João Paulo II foi um homem que marcou a história com traços fortes de santidade e de intensa vida interior. Qual a importância dessa vida interior?
Padre Wagner: Quando falamos de vida interior, estamos falando de espiritualidade. Estamos nos referindo àquela graça que o Senhor nos dá em ter um encontro pessoal com Ele através da vida de oração. João Paulo II era, sem dúvida, um homem de oração. Muitos bispos testemunham que João Paulo II tinha o hábito de prostrar-se, ou seja, ficar deitado sobre o chão de sua capela particular - em adoração - diante do Santíssimo Sacramento. Ele foi um homem de grandes iniciativas, com um enorme empenho missionário. E o fundamento de tudo isto estava em seu encontro com o Senhor dentro do próprio coração. Isto, para nós, é uma lição. Um testemunho a ser imitado. Não há como nós – no mundo em que vivemos – sermos autênticos cristãos sem uma vida interior, uma vida de oração.
cancaonova.com: Logo depois de ser eleito Papa, João Paulo II assim nos exortou: “Não tenhais medo!”. Apontando sempre caminhos de reconciliação e paz, viajou por todo o mundo, correndo todos os riscos, na atualização da missão de Jesus Cristo, em incansáveis ações de nova evangelização. No caminho de santidade, qual a importância de ser missionário?
Padre Wagner: As viagens de João Paulo II a diversos lugares do mundo são um testemunho forte de que ele tinha consciência de ser um Papa missionário, evangelizador. Ele sabia que, como o “Vigário de Cristo” na terra, ele precisa ir ao encontro dos povos. Acima de tudo, ele testemunha para nós que todo batizado traz, consigo, a vocação à missão. E, aqui, eu não falo somente da realidade dos missionários que vão ao encontro de outras culturas para levar a Boa Nova, mas também daquela realidade missionária diante daqueles com os quais convivemos diariamente. A começar pelas pessoas de nossa própria família que precisam ser salvas e chegar ao conhecimento de Jesus Cristo.
Pela força do Sacramento do Batismo nós, cristãos, devemos viver esta realidade da missão. É preciso anunciar Jesus Cristo, onde o Senhor nos coloca. E não ter medo – como disse João Paulo II – de enfrentar os desafios deste mundo e as dificuldades próprias da vida.
"João Paulo II viveu um amor marcado pela perseverança", explica padre Wagner Ferreira
Foto: Maria Andreia / CN
cancaonova.com: João Paulo II sempre manifestou uma particular atenção e carinho para com as crianças, os mais pobres e os mais frágeis. E seu maior gesto evangélico foi a visita ao seu agressor, na prisão, e a longa conversa que manteve com ele, num gesto ousado de perdão, repleto da compaixão de Deus. No caminho de santidade qual a importância de ser caridoso?
Padre Wagner: João Paulo II deixou-se conduzir pelo mandamento do Senhor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Somos chamados a testemunhar, neste mundo, que Deus é amor. E este testemunho se dá pela prática concreta do mandamento do amor. João Paulo II viveu isto em várias situações. E, nesta atitude do perdão ao seu agressor, João Paulo II encarnou o mandamento do amor. Isto não pode se tornar simplesmente um modelo a ser admirado. É necessário que a atitude de João Paulo II seja vivida por cada um de nós. Diante de sua beatificação, pedimos sua intercessão para que tenhamos a graça de viver o mandamento do amor em gestos concretos de caridade aos mais necessitados. E também pedimos a intercessão de João Paulo II para vivermos o amor dentro do contexto do perdão. Perdão dentro de casa com nossos familiares. Aprendermos a dar e a pedir perdão. É este lindo testemunho que João Paulo II nos dá.
cancaonova.com: De modo humilde e sereno, João Paulo II encarou a sua doença e, mesmo já gravemente enfermo e na despedida deste mundo, deu-nos muitas lições, como mestre e pastor até ao fim. No caminho de santidade qual a importância do testemunho de fé?
Padre Wagner: Vivemos num contexto cultural onde as coisas são “instantâneas”, muito rápidas e até mesmo provisórias. Tudo hoje em dia é muito provisório. Até mesmo em relação aos compromissos que hoje assumimos e amanhã já desfazemos! E, diante disto, surge o testemunho de João Paulo II que enfrentou sua enfermidade até o fim. E enfrentou trabalhando, vivendo seu compromisso como o Sucessor de Pedro. Ele deu um testemunho de amor a Deus e por Deus, ou seja, de amor à humanidade e à Igreja. Um amor perseverante. Um amor que assume compromissos. Um amor que não “deixa de lado” seu compromisso por causa de eventuais dificuldades.
Este testemunho de João Paulo II nos ensina que devemos assumir com o Senhor um compromisso para sempre. João Paulo II nos revela este amor “teimoso”. Este amor que não abre mão diante das adversidades e dos desafios. Um amor que enfrenta até o fim. Que bom seria, se cada um de nós pudesse viver este amor nos compromissos com nossa família! Marido e esposa, dentro do compromisso conjugal. Pais e filhos, em suas relações. Nós, cristãos, no compromisso com nossa comunidade. Viver este amor marcado pela perseverança.
cancaonova.com: Deixe sua mensagem final aos internautas que acompanham esta entrevista e que, de forma especial, se alegram neste momento com a beatificação desse grande homem de Deus. Aproveito também para lhe pedir que o senhor nos envie a sua bênção.
Padre Wagner: A vida de João Paulo II é um apelo de Deus à santidade. Ele já está na glória de Deus. Mas, ele está na glória de Deus, pela docilidade à Graça divina durante toda sua vida aqui na terra. Fica para nós este apelo: meus irmãos, minhas irmãs, vale a pena a santidade! Não existe felicidade maior na vida de uma pessoa do que se tornar santo, santa. Mesmo com todas as dificuldades da vida, as adversidades, os problemas e sofrimentos que enfrentamos. Vale a pena. Para mim, a beatificação de João Paulo II ecoa em meu coração como um apelo à santidade. E que isto fique para cada um de nós.
Portanto, invocamos a bênção de Deus pela intercessão deste beato, Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II. Esse Deus que é Todo Poderoso: Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
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